
Para mim ir à biblioteca não é apenas poupar dinheiro. É principalmente tornar os livros um assunto emocionante no dia-a-dia. Há sempre livros novos cá por casa. E esses livros, depois de lidos e relidos, são devolvidos e aparecem outros. E quando os novos aparecem, é sempre uma surpresa e uma coisa boa. Na verdade, por vezes os livros tornam-se uma praga que se alastra por todas as divisões, por todas as prateleiras, mesas, cadeiras, chão. Às vezes apetecia-me ter uma casa muito zen, com meia dúzia de objectos: três camas, três cadeiras, três copos, três garfos, três escovas de dentes… e pouco mais. Talvez um dia consiga qualquer coisa próxima disso. Mas dos livros sei que nunca vou conseguir prescindir.
Cresci numa casa cheia de livros. E quando um dia fui viver para a minha primeira casa já levava comigo uma estante cheia deles. Depois vivi em dez ou onze casas diferentes (já nem tenho paciência para as contar) e cada vez que mudei de uma para outra os livros foram sempre a coisa mais difícil de transportar: muito peso, muito pó, muitos caixotes. Dessas casas apenas numa os livros não ficaram na sala porque tinhamos dois escritórios e foi aí que os arrumámos. No dia em que deixámos essa casa percebi que a ausência dos livros na sala a tinha tornado, durante o ano que lá vivemos, um espaço estranho, de passagem, pouco acolhedor. Por não ter livros. Uma sala sem livros parece-me sempre uma loja de móveis. Na casa actual vingámo-nos e cobrimos uma parede enorme da sala com umas prateleiras feitas à mão por um super carpinteiro. É lá que estão quase todos os livros. Fora todos os outros que circulam pela casa.
Também sou muito possessiva com os livros. Porque gosto de os ler, de os ter e de os fazer. É um dos objectos do meu trabalho e o design editorial sempre foi uma das minhas áreas preferidas.
As bibliotecas também têm outro papel importante – ajudam-me a controlar o meu instinto. Aquele que me faz ter vontade de comprar dez livros por dia.
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