Foi um ano mau. E eu quero escrevê-lo aqui porque um dia, quando vier ler os arquivos deste blog, quero ver que soube chamar às coisas aquilo que elas são.
Foi um ano muito difícil. E não me lembro de outro dia 31 de Dezembro em que me apetecesse dizer isto.
Foi um ano com medo. E o medo é a pior de todas as coisas.
Este blog é a minha forma de destacar bocadinhos da parte melhor dos meus dias, da minha vida e da minha cabeça. Faz-me bem porque me dá esperança de que as pequenas boas coisas continuem a acontecer e, espero, pode inspirar da mesma forma outras pessoas. Assim continuará a ser.
1. Um truque: cá em casa toda a gente gosta de laranjas mas ninguém toma a iniciativa de lhes pegar, senão quando as corto em gomos e as levo para a mesa prontas a comer.
2. Herdei, das mãos generosas da minha Tia Ana, uns metros de renda feita à mão por uma senhora com mais de 90 anos. Prometo usá-la muito bem.
3. Quase tão bom, e muito mais barato do que comprá-las aos vendedores de rua, é assar umas castanhas no forno e comê-las à noite enroscada no sofá.
À noite angustio-me com as notícias, com os ventos que vêm de Espanha, com o estado do país e do mundo.
De dia mergulho no universo dos bebés — falo com grávidas felizes, respondo a e-mails de pais babados, envio alcofas a avós entusiasmadas, dou informações a animados grupos de amigos.
Às vezes o meu trabalho parece-me o País das Maravilhas. Eu devo ser a Alice.
Se eu tivesse de contar uma coisa sobre mim que é muito diferente na maioria das outras pessoas, diria isto: eu gosto de ver debates e comentários políticos na televisão, leio as páginas de política nacional dos jornais, adoro ler entrevistas e artigos de fundo sobre o assunto e, enquanto trabalho ou faço o jantar, oiço uma rádio que me dá música e notícias em doses iguais.
Muitas vezes acabo furiosa, irritada e a sentir que o mundo é um lugar injusto. Mas esse é o preço a pagar pela tentativa de ter os pés na terra e o olhar atento.
Sinto-me na obrigação — por mim, pelas minhas filhas, pelo mundo — de participar nas escolhas que condicionarão os nossos dias e as nossas vidas. E estar atento, discutir, pensar e ouvir quem pensa, são formas de participação.
Amanhã, faça chuva ou faça sol, estarei na rua a mostrar que estou cá, que estou atenta, que me sinto uma parte importante deste todo que é o nosso país, e que para mim não é igual que se façam as coisas desta ou daquela forma. Há formas justas e outras injustas. Há formas humanas e outras cruéis. Há coisas que se podem suportar, outras não.
Amanhã estarei na rua a mostrar que estou acordada.
1. A minha mesa de trabalho é assim. É assim sempre. E às vezes é pior.
2. Tenho um problema sério com os restos de tecidos que produzo todos os dias. Não os consigo deitar fora mas já não aguento viver com eles. A bem do espaço e da minha sanidade este monte de retalhos vai ser transformado numa prenda daquele que será, para mim, o casamento do ano. Tenho um mês e meio.
…
No dia da criança, o mundo de hoje descodificado por uma delas, aqui. Viva as pessoas pequenas!
Já há muito tempo que os lanches vão para a escola dentro de sacos de pano. Aliás, pouca coisa na minha vida não é transportada dentro de sacos de pano, não fosse eu uma Maria-Saquinhos. Mas dentro dos tais sacos muitas vezes iam caixas ou sacos pequeninos de plástico com o pão ou as bolachas. Agora acabou. Estes panos-com-trapilho-cosido embrulham os lanches e acabam com uma parte do plástico que ainda entrava cá em casa. Demorei 15 minutos a fazê-los.
As primeiras vezes que a ouvi cantar na rádio, sem lhe ver a cara, imaginei-a uma mulher mais velha, negra e grande. Por causa da voz poderosa que jamais poderia ser a de uma menina. Mas afinal era mesmo uma menina com uma voz de outro mundo. Nunca percebi como era possível ter uma voz assim com aquela idade e com aquele ar franzino.
Quando gosto muito de um músico, de um escritor, de uma actriz, de um artista — e quando não têm uma idade assim tão diferente da minha — costumo pensar na sorte que é poder ir acompanhando, no futuro, o seu trabalho e o seu talento.
Como explicar a uma criança de três anos esta imagem de uma menina com um pano de um belíssimo amarelo? Eu fiquei sem palavras. Não consigo explicar-lhe aquilo que eu própria tenho dificuldade em perceber. Ela decidiu que era uma menina com uma capa para a chuva. Eu achei que, por enquanto, podiamos ficar por aqui. Entretanto vou pensando na melhor forma de lhe apresentar alguma da estranheza deste mundo.
Talvez uma hipótese seja dizer-lhe que, mesmo agora que os bichos já deixaram de falar, ainda há homens a quererem beijos. Talvez.
A minha Avó Mimi fazia micro-roupas (costuradas com a mesma perfeição da roupa a sério) para as minhas bonecas;
Havia lá em casa este livro que explicava a obra de Chagall às crianças;
Tinhamos por todo o lado autocolantes e crachats contra a energia nuclear.
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Agora que já sou crescida, recupero para as minhas filhas o legado da sua bisavó, os livros que os seus avós acharam importante mostrar aos filhos deles e volto a pôr na parede a resposta simpática mas categórica — NÃO, OBRIGADO!