O meu pai

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O meu pai tem um assobio de chamamento para os filhos. Sempre teve. É uma musiquinha de apenas duas notas que nos põe, a mim e aos meus irmãos, imediatamente de orelhas no ar à procura da origem do som, seja onde for que estejamos. Já vi amigos meus ficarem de cara à banda por me ouvirem dizer no meio de uma multidão — O meu pai está cá. E depois encontrá-lo pelo som do seu assobio num sítio onde se diria ser impossível encontrar quem quer que fosse. Também já foi muito útil: em pequeninos houve várias vezes que nos perdemos (em pequeninos passámos muito tempo no meio de multidões, a comemorar os novos tempos — a verdade é essa) e fomos encontrados com o assobio do meu pai.

Talvez por isto eu tenha tanta mas tanta pena de não conseguir assobiar.

Porque em pequena tinha uma imagem na cabeça que correspondia à pessoa despreocupada e destemida que eu queria ser — género Tom Sawyer a assobiar ao longo das margens do Rio Mississippi enquanto dava pontapés em pedrinhas.

E, agora que tenho filhas pequeninas, adorava fazer o mesmo que o meu pai continua a conseguir com os seus filhos matulões — vê-las correr radiantes para mim com o simples som de duas notas.

16 thoughts on “O meu pai

  1. ! Esta pretende ser uma das muitas lágrimas que chorei emocionado, quando, apenas hoje, vindo de fora, vi/li o que, aqui, TU e Outros tão simpaticamente escreveram.
    A todos o meu obrigado.
    Beijinhos e abraços.

  2. Inês,

    Fiquei comovida com o post.

    Acabei por me rever no assobio, que também tive, e que me fez sorrir e arder os olhos quase em simultâneo.

    Bom existirem memórias doces como esta. Bom guardá-las e poder revisitá-las.

    E melhor que ter tido um assobio que nos guia e nos conforta no meio de multidões, é termos tido quem nos chamasse, procurasse, quisesse e amasse. Como mãe hoje compreendo melhor aquilo que nos unia aos nossos Pais, o sentimento puro e TÃO GRANDE que nos invade quando nascem e nos são postos nos braços.

    E como mãe, hoje doi-me especialmente pensar que há crianças que nunca tiveram um “assobio”, e nunca sentiram o que é ser de alguém.

    Obrigada por esta pequena “viagem”.

    Beijinhos,

    Catarina

  3. Que lindo Inês,

    Também eu e a minha irmã respondemos anos a fio a um lindo assobio do pai que já não está.

    Entretanto, antes de ter filhos tive um lindo Labrador, o meu Baltazar, para quem adoptei um assobio muito parecido ao que o meu pai usava; e os meus 3 filhos foram crescendo ao som do assobio do Baltazar e assim continuam, dizendo sempre que viram a cabeça … “e o Baltazar não está”.

    São elos que não se perdem.
    Tente e tente outra vez, é tão bom, no meio da multidão, saber que eles vão saber que não estão sozinhos!

    Susana Ramalho

  4. Ao que me parece os papais criaram um chamamento que nos aquecia ou aquece os nossos corações. O meu, durante a minha infância, a época das férias escolares, quando ainda podia-se brincar até tarde da noite nas ruas do Rio, nos chamava deste modo. O que sempre era acompanhado de um ” nos deixe mais um pouquinho!…”. Saudosos tempos. Obrigada por me fazer recordar, te acarinho Inês.
    Uma boa tarde.
    Silvia
    Rio

  5. O meu pai tb, e que boas recordações tenho da minha infância a seguir o assobio para o encontrar! E todos nós usamos hoje em dia! **

  6. que foto linda inês ! és tu nos braços do teu pai ? e que bonito o texto sobre o teu pai; ainda me lembro de um outro texto que escreveste sobre ele !

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